Construindo o vínculo entre
bebê e pai.


Em conversas sinceras e reais com alguns pais no consultório percebi que ás vezes os papais se sentem meio de lado em casa porque as mães assumem a maioria das responsabilidades logísticas e cuidados com o bebê.

Alguns se queixam porque o bebê chega a estranha-los ou percebem que o vínculo com o filho ainda não está tão bem estabelecido.

E de fato muitas famílias lançam mão de ajuda externa de babás, vovós ou outros membros da família e ás vezes os pais e até as mães perdem algumas oportunidades de assumir os cuidados dos bebês e assim perdem a chance de aprender mais sobre seu filho.

Olhei para esta queixa com cuidado e preocupação e concluí que posso ajudar.

Ás vezes pequenas mudanças de atitude dos pais podem mudar o futuro de sua relação com os filhos.

Aprendemos a amar cedo. E amamos aqueles com quem convivemos. Com bebês não tem outra saída. Presença é fundamental.

Já ouvi várias histórias em que as mamães precisaram se ausentar em alguma situação de urgência e o pai precisou assumir os cuidados do bebê. O final das histórias é sempre o mesmo. O bebê "descobre" o pai e vice-versa e essa relação muda para sempre.

Então, para que não seja necessária nenhuma urgência para que os papais descubram seus bebês, seguem algumas dicas práticas pra você papai ou qualquer pessoa que deseje melhorar o vínculo com o bebê.

1 - Passe um tempo sozinho seu filho.

O bebê ouve tudo o que as pessoas falam e muitas vezes constrói a imagem que tem sobre cada pessoa baseado no que ouve falar sobre ela.

Ex.: “O papai trabalha muito. ”, “O papai está sempre com pressa. ”, “O papai é bravo. ”

Essas frases vão se tornando a verdade para o bebê à medida que ele cresce e que o pai não faz nada para mostrar que é muito mais do que as pessoas dizem sobre ele.

Deixar a esposa, a babá e a vovó em casa e sair sozinho com a criança garante à criança a oportunidade de construir sua própria impressão sobre o pai através de sua experiência e não baseada naquilo que ela ouve de outras pessoas. E garante ao pai a oportunidade de conhecer melhor o bebê, suas necessidades e as dificuldades que envolvem cuidar de uma criança.

O pai que passa um tempo sozinho com o bebê entende mais as angústias maternas e tem a chance de melhorar a parceria do casal.

2 - Toque e olhar. Minutos diários de qualidade.

O momento pele a pele é importante para o bebê desde o nascimento. Assim como a troca de olhares. Muitos estudos já relacionam o aumento dos casos de autismo ao estilo de vida que temos. Os pais não trocam olhares com os filhos e muitas vezes não os tocam. Então as crianças não aprendem a fazer isso e podem ter dificuldade de interação social no futuro.

Estamos sempre com pressa e não sobra tempo de qualidade para o bebê. Hoje em dia há sempre um eletrônico entre o pai e a criança. Então tenha disciplina para ter momentos diários de atenção exclusiva para seu filho. Sem computador e sem celular.

Às vezes poucos minutos dedicados a ficar com o bebê no colo e conversar com os olhos garantem muito a vocês dois.

Inventar por exemplo um movimento divertido de sobrancelhas ou boca enquanto estiver com o bebê pode ser um bom começo. Os bebês tendem a tentar imitar e tentam fazer os mesmos movimentos quando o pais chegar ou quando estiver tentando chamar o pai.

Os bebês se comunicam muito antes de falar.

3 - Te trouxe um beijinho presente. Evite os presentes.

Por mais tentador que seja chegar em casa sempre com um agrado, esse é um hábito nocivo para o desenvolvimento emocional da criança. Algum se "viciam" na sensação de premiação o tempo todo e se tornam insaciáveis e frustrados consumidores no futuro.

Deixe os presentes para os outros parentes e amigos. E se não tiver presente melhor ainda!

Faça seu bebê entender que a presença e atenção das pessoas são mais valiosas do que qualquer coisa. Então frases como "te trouxe meu beijinho de presente" ou “sua presença é um presente pra mim” também são bons começos.

4 - Volto mais tarde. Não implore pela atenção do seu filho.

Isso tem que ser natural. Se o bebê não estiver a fim, deixe para outra hora.

Respeitar o tempo da criança é sempre enriquecedor.

5 - Nunca, jamais grite com seu bebê ou use qualquer tipo de violência para educar.

Já está mais do que provado que violência não gera aprendizado e sim medo. Quem tem medo não aprende.

Então, quando estiver prestes a perder a paciência (e você vai perder porque é normal) saia de cena. Desenvolva sinais de auto-conhecimento dos seus limites de paciência com seu bebê. Isso é MUITO importante.

Tente ser sempre acolhedor e carinhoso. Mesmo quando seu bebê estiver em plena crise de birra. Se não der para ser calmo, volte outra hora. Melhor evitar. Isso evita que o bebê imite um comportamento seu que você não quer que seja aprendido.

6 - O poder do discurso.

Fale sobre você de forma positiva.

Tudo o que a criança ouve, para ela, é verdade. O que você quer que ela saiba sobre você?

Se ela ouve dos outros que você trabalha muito ou que você é bravo, ou que não gosta disso ou daquilo isso vira verdade pra ela.

Diga exatamente o que quer que ela saiba.

Ex.: “O papai trabalha bastante, mas nós fazemos muitas coisas legais juntos, ou passamos muito tempo também juntos”, “O papai tem muita paciência com você” “O papai gosta muito de dia ensolarado “ou “O papai detesta café”.

Isso constrói a imagem que seu filho tem de você baseada em informações positivas, simples e verdadeiras.

7 - Fale sobre amor.

Já assistiu Le Petit Nicolau?

Esse filme mostra a visão e os conflitos de um menino de 8 anos que vai ter um irmão. E ilustra algo que todo pai deveria saber.

O amor incondicional dos pais pelos filhos não é óbvio pra eles.

Eles têm medo de perder os pais ou de não serem amados o tempo todo. Cabe a nós dar a eles essa segurança com nossas atitudes do dia a dia (presença) e através do que falamos.

Frases do tipo: “Eu trabalho muito, mas sempre vou voltar pra você. ”

“Viajo muito, mas sempre vou te levar no meu coração porque nós estamos juntos mesmo quando estamos separados. ”

“Eu te amo mais do que tudo. E sempre vou te amar aconteça o que acontecer. ”

Para a gente parece óbvio, mas pra eles não é. Quanto mais seu filho ouvir, mais vai rápido internalizar e se apropriar de seu amor por ele.

8 - Cuidados do dia a dia

Sempre penso no filme AI (Inteligência Artificial) quando o assunto é amor parental. O filme trata de amor da forma mais pragmática e ao mesmo tempo sensível possíveis. Um robô criança programado para ser filho tem a capacidade de amar sua mãe. No decorrer do filme ele se separa de sua mãe e a razão de sua existência passa a ser encontrar novamente essa mulher e sentir novamente seu amor de filho ser correspondido pelo amor materno. Depois de centenas de anos de espera uma forma alienígena consegue fazer os dois ficarem juntos novamente e adivinha o que acontece quando o filho encontra a mãe?

Eles se abraçam, ela dá uma refeição a ele, dá um banho nele, penteia seu cabelo ainda molhado, coloca água para ferver para fazer um chá. Ele então faz carinho no cabelo dela até ela dormir.

A simplicidade e simbolismo destas cenas representam o recado que eu gostaria de deixar aqui. Pequenos cuidados e demonstrações de carinho simples do dia-a-dia constroem muito mais a relação entre pais e filhos do que presentes mirabolantes ou viagens caras.

Então, papai, se você ainda não dá banho ás vezes no seu filho, não oferece a comida ou não o coloca para dormir, comece hoje. Hoje é o melhor dia para mudar sua relação com seu filho para sempre.

9 - Eu te amo do jeito que você é.

Não nada mais repetitivo e primitivo do que pais que colocam suas expectativas de vida nos filhos. O ritual é sempre o mesmo. Pais pressionando os filhos para serem o que eles nunca serão e negando ou desprezando os talentos naturais dos filhos. Resultado? Filhos inicialmente exaustos por nunca conseguiram agradar, depois passam pela fase tristeza, revolta até que, já adultos, aceitam que as vontades dos pais pertencem a eles e cada um segue sua vida cheia de mágoas e cicatrizes.

Uma boa ideia é deixar que os talentos e limitações dos filhos apreçam enquanto os pais oferecem uma base sólida para um bom desenvolvimento psicológico e assim possibilitar que a criança atinja seu potencial intelectual e emocional naturalmente. O impacto emocional negativo que a pressão e a violência causam, podem impedir que a criança alcance suas possibilidades pedagógicas. Forçar a barra é sempre improdutivo.

10 - Cuide-se.

Para cuidar bem de alguém, é preciso cuidar primeiro de si mesmo.

Para que esse desafio da paternidade tenha alguma chance de dar certo, os envolvidos precisam se respeitar. Expectativas, necessidades e limites individuais precisam ser expressados de forma clara entre o casal. Silencio e ressentimento podem levar a um afastamento de difícil recuperação. Solução? Diálogo. Se for difícil conversar é preciso que se torne fácil porque não tem outro caminho.